03 - Road Trippin'
Todo artista tem de ir aonde o povo está!
Hoje temos uma edição um pouco diferente, meio reflexão, meio relato de viagem. Infelizmente não couberam todas as fotos que tiramos, mas vamos postá-las no Instagram logo mais. Espero que curtam!
Posso falar? Eu tenho preguiça de ir em festivais, feiras, eventos em geral. Pense bem: é um puta trabalho. Temos que separar tudo que vamos vender direitinho, preparar materiais de exposição, carregar maquininhas e powerbanks, nos deslocarmos até o local, e aí passarmos 8, 10, 12 horas por dia nos nossos fins de semana (ou dias de folga), falando alto, no meio da multidão, repetindo a mesma coisa de novo, e de novo, e de novo. E quando o evento em questão é em outra cidade, então? Longas horas dentro de um carro ou ônibus, ou lidar com companhias aéreas: dois terrores diferentes para escolher. Passar dias longe da sua casa, dos seus entes queridos, animais de estimação, da sua cama, do seu chuveiro… É terrível!
Esses são pensamentos que eu tenho, 100%. Mas, por sorte, a mente humana não é tão simples. Junto com esse KZ, mora outro em minha cabeça que acha esse um palerma por se deixar levar por essas coisas. Porque, por outro lado, apesar de todo esse esforço e desgaste, acabam sempre sendo muito divertidos. E, mais que isso, os eventos são o que fazem os quadrinhos independentes (e não só eles) rodarem.
Quero dizer aqui “rodar” no sentido físico e financeiro, claro, pois os eventos nos permitem conhecer e sermos conhecidos por um público que talvez não chegasse nas nossas obras de outra forma, mesmo com a internet supostamente ajudando nesse processo. É muito mais efetivo e prazeiroso estar na presença dos autores, tocar as obras, conversar sobre elas e tudo mais. Mas “rodar” aqui também tem o sentido de colocar as relações, as ideias em movimento. As feiras nos permitem estar com amigos de outras cidades e estados que não vemos em outro contexto, aproximam esses laços e acabam fomentando ideias e inspirando novas criações. Se, por um lado, chegamos em casa com as baterias social e física exauridas, por outro a criatividade vem a 120%!
Nos EUA, um país quase tão grande quanto o Brasil (pensando nos EUA continentais) mas com um mercado de quadrinhos que sempre foi muito maior e mais robusto, esse fenômeno é ainda mais evidente. Lá, praticamente o ano todo acontecem eventos de pequeno, médio, ou grande porte, e é comum encontrar relatos de quadrinistas que viajam juntos com frequência e, assim, formam afinidades e parcerias.
Noah Van Sciver, por exemplo, já falou muito sobre suas viagens com John Porcellino, que foi uma espécie de mentor para Noah quando ele estava ainda começando, e ambos viviam em Denver. Aqui vocês podem ler um relato de uma viagem posterior feita por eles, quando já não viviam mais na mesma cidade. Não tenho dúvida de que essas viagens que eles compartilharam contribuíram muito para formar a amizade e admiração mútua que eles têm um pelo outro.
Da mesma forma, quando Joe Matt faleceu (RIP), a grande maioria dos quadrinistas que escreveram relatos sobre ele lembrava dele em eventos de quadrinhos, ou em viagens relacionadas aos quadrinhos. A famosa amizade entre Matt, Chester Brown e Seth também foi consolidada nesses eventos e viagens.
Até mesmo os quadrinistas mais mainstream se beneficiam desse contato uns com os outros e o público. É sabido, por exemplo, que a ideia para a mini-série do Wolverine que basicamente estabeleceu a base do personagem para se tornar o que é hoje teve origem em uma longa viagem de carro que Chris Claremont fez com Frank Miller. Nessa viagem, ambos desenvolveram as ideias que mais tarde vieram a publicar juntos.
E não podemos esquecer da célebre turnê HateBall, quando Peter Bagge e Daniel Clowes caíram na estrada para promover seus quadrinhos, Hate e Eightball, respectivamente, por diversas lojas de quadrinhos americanas. O ano era 1993, e eles ainda não tinham todo o reconhecimento do qual desfrutam hoje, muitas vezes dormindo em sofás de conhecidos, ou mesmo no chão das lojas em questão. Certamente um perrengue atrás do outro, mas também acredito que tenha sido incrivelmente divertido.
Por aqui, as coisas são um pouco diferentes. Infelizmente não temos tantos eventos que valham a viagem dos autores, financeiramente falando. E temos menos lojas especializadas ainda, tirando algumas bravas guerreiras pelo país. Assim, algo como HateBall é apenas um devaneio para quadrinistas brasileiros, e as viagens para eventos são muito mais raras.
O que quer dizer que devemos aproveitá-las, sempre que possível. Recentemente, tive a oportunidade de estar em mais uma, participando com o Selo Harvi da mais recente edição da Feira Canastra, em Belo Horizonte.
A Canastra é uma das feiras que mais gosto. A curadoria, a atenção aos detalhes e a comunicação me lembram muito, ainda que em menor escala, a Miolo(s), aqui de São Paulo, outra feira que adoro. O fato de ser em Belo Horizonte, uma cidade que sempre me agrada demais, também ajuda muito.
Junto com Bruno Guma, Edson Bortolotte e Atópico, pegamos a estrada para BH na sexta-feira de manhã. São mais ou menos oito horas de estrada, geralmente.
Vou tanto pra lá que já tenho alguns rituais que compartilho com meus companheiros de viagem habituais. Um deles é parar no Bob’s do Posto Garitão, em Lavras. Tenho feito isso desde a primeira Canastra, em 2019, quando fiz esse caminho com João B. Godoi. Milk-shakes de Ovomaltine!
Chegando lá, Atópico foi para um Airbnb que dividiu com Lobo Ramirez e Sebastião Dojcsar, e nós três seguimos para um outro apartamento, que dividimos com esse mesmo João (que dessa vez foi de avião, o desumilde). Já era noite, mas ainda deu tempo de irmos ao Mercado Novo, no Centro de BH, onde sempre se come e bebe bem.
Sábado começou a feira, onde pude reencontrar outros amigos, como Murilo Martins, Pablo Carranza da Mau Gosto Corp., Luísa Lacombe, Pedro Franz, Ea Damaia, Larissa Mundim da NegaLilu, Angela Mendes, da Edições Barbatanas, e minha ex-sócia, Laura Del Rey, da Incompleta, entre outros. Bom demais ver todo esse povo de novo.
Também foi na Canastra que Vidrado, do Xavier Ramos, encontrou o público cara-a-cara pela primeira vez, e fico feliz em dizer que teve uma aceitação bem legal. Voltei apenas com a cópia de mostruário pra casa.
Domingo teve mais! O dia não foi movimentado como no sábado, mas mesmo assim fizemos umas vendas legais, inclusive uma na qual tive que praticamente entrar pela janela para fazer uma assistência.
No fim de domingo, esbarramos com um dos principais problemas de BH, além do calor, ao meu ver: a falta de lugares para ir no domingo à noite. Quase tudo fecha por volta das 20h, isso quando abre. Mesmo assim, conseguimos encontrar um lugar para abrigar nosso grupo, e com uma cozinha excelente de quebra, como é de costume na cidade.
Segunda-feira pegamos a estrada de volta, seguindo mais um ritual: a parada no Pinheirinho, um restaurante bem simples, mas que fica praticamente no meio do caminho e que sempre nos proporciona um último gostinho de Minas, com comida à vontade feita no forno a lenha.
Segunda à noite já estávamos de volta. Eu, pelo menos, totalmente exausto, quebrado, precisando de um tempinho sozinho, mas também satisfeito e com a criatividade restaurada.
Obrigado por nos receber, Canastra e BH, e até a próxima!
-KZ
Falando nisso…
Sammy Harkham é um dos meus quadrinistas favoritos, atualmente. A Balão Editorial lançou seu Pobre Marinheiro por aqui, o qual eu recomendo muito. Todos os quadrinhos que li dele até agora são de muito bom pra excelente, mas recomendo fortemente Blood of the Virgin, que ainda não saiu por aqui. Esse é um quadrinho que eu lançaria facilmente no Brasil, se algumas coisas fossem diferentes.
No entanto, me lembrei dele agora por causa dessa pequeníssima história de um só quadro, tirada de sua antologia de um homem só, Crickets. Não lembro qual número, e não consegui localizar nas minhas edições, mas, por sorte, eu já tinha a foto:











